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As fintas entre as nossas escolhas e o sistema imune

Encontrei fotos de 2014. Um fim-de-semana de três dias com as amigas por aí no modo despedida de solteira como tanto gosto de chamar. Não, ninguém ia casar nem estava para aí virada. Mas sempre consigo convencer por onde passamos que uma vai casar. E, assim, depois de provavelmente ter consumido os filmes hangover, team bride lá foi. Carro acabado de comprar cheira a liberdade combinada com a vontade de ultrapassar limites mentais. Sim, porque penso que o mais longe que tinha conduzido devia ter sido Aveiro e Braga. Pois, sempre tive e tenho as minhas barreiras mentais. Como todo o ser humano. 

Vão sendo quebradas aqui e ali mas tudo o que quero com este texto é chegar na questão: será gerado stress emocional quando elas são quebradas ou é aliviado? Quando é que libertamos cortisol em massa? Na adrenalina. E aceitamos a pequena ressaca, aceitamos relaxar depois da adrenalina?

Não podemos viver em constante adrenalina mas é fixe. Gostamos. Quando vivemos na monotonia a vida parece uma seca. Mas não é isso propriamente que nos inflama e nos causa alterações no sistema imune. Não é onde nada acontece. Nem no ultrapassar de uma barreira e posteriormente descansar gozando-o.

O que nos inflama é a constante ânsia de manter a libertação de adrenalina, na constante necessidade de estar em alta, da constante necessidade de mostrar a altura e não reservar tempo para usufruir dessa altura reproduzindo, automaticamente uma nova subida para fazer, fazer e fazer. Ou seja, estimulo stressor mantido no tempo. É na incapacidade de dar tempo ao corpo para se adaptar a tudo novo que o estimulo stressor gerou que, puff, ficamos debaixo de água.

A resposta ao stress é mediada pela ativação do eixo hipotálamo-pituitário-adrenal e pelo sistema nervoso autónomo.

O stress é definido pelo estado em que o equilíbrio, a homeostase do organismo, é desafiada e alterada. Tal é desencadeado por estímulos stressores que são sentidos de forma diferente de pessoa para pessoa. Dependem das suas características inatas e do meio em que cresceram e vivem. Comportamentos variam segundo agentes stressores como portação de uma doença, confrontos matrimoniais, pressões sociais, pressão no trabalho, pressões internas, abuso sexual, stress pós-traumático, morte/perda de uma pessoa importante, activando o eixo HPA. Infecções, desnutrição, ruído, odores activam, também, o eixo HPA.

O stress implica uma resposta adaptativa fundamental à sobrevivência.

Perante algo inesperado, perante algo novo, perante o que nos altera a monotonia, o organismo vai reagir:

  • aumentando a secreção de epinefrina e norepinefrina (adrenalina)
  • aumento da ACTH e consequente aumento do produção de cortisol
  • aumento da frequência cardíaca e frequência respiratória
  • ativação da resposta imune
  • mobilização de energia
  • aumento do fluxo sanguíneo cerebral e utilização da glicose
  • perda de apetite
  • maior retenção de água e vasoconstrição

Ou seja, este tipo de stress é o chamado stress agudo. Induz uma boa resposta imune celular com um aumento do número de células NK.

Por outro lado, se nos mantemos no stress crónico, todo o panorama é outro. Talvez quando estamos a testar os nossos limites e toda a hora, quando queremos vencer barreiras atrás de barreiras, quando exigimos constantemente de nós próprios, quando queremos sempre mostrar que estamos bem, que damos 101, que somos impagáveis, invencíveis, quando não nos permitimos descansar, usufruir da barreira ultrapassada ou até falhar e gozar a falha, dependendo do tempo que nos mantemos neste registo, entramos no modo stress crónico.

E perante stress crónico, o sistema imunitário deprime. Porquê? Porque a activação do eixo HPA frequentemente repetitiva sem a presença de tempo de recuperação ou relaxamento resulta numa alteração dos sistema imunitário.

Somos expostos ao stress sem tempo de pausa, sem tempo de recuperação o que não nos confere tempo de nos adaptarmos. Ou seja, o tempo de gozo da barreira ultrapassada é essencial, o tempo de recuperação após o estimulo stressor é essencial para o nosso sistema imune. Tanto quanto a libertação de adrenalina. Mas é importante gozar a ressaca, a pequena ressaca em vez de não a permitir, dar tudo, andar no limite durante meses ou anos desvalorizando os ganhos, as conquistas. Aí, essa ressaca vai ser a doer.

Ao que parece tudo depende do tipo de stress ao qual estamos submetidos e da nossa capacidade adaptativa perante o stress.

A quebra da adrenalina, a queda do cortisol pode ser rápida após o seu pico. Ou seja, um stress curto, aquele bom que nos relembra que estamos vivos, que nos faz sentir o coração a bater forte e, de repente, todo o nosso corpo reage.

Mas pode, também, queda do cortisol ser tardia. Quase como se não permitíssemos a ressaca e queremos sempre manter em alta os níveis de adrenalina e cortisol, essa sensação de todo o corpo activado prolongada no tempo. Tal leva a que o mesmo stress seja repetido, de forma a causar esse high. Tal dessensibiliza o eixo HPA levando a um decréscimo gradual na sua ativação conjuntamente com uma alteração da sua inibição.

Esta semana em consultas surgiu um caso de fibromialgia diagnosticado há 4 anos atrás. Na casa dos 40, sem sintomatologia anterior e um atleta até. Dá vontade de dizer “porra, o que é que se passa no cosmos, o que é que se passa no nosso estilo de vida, na nossa forma de viver, na nossa cabeça para cada vez mais e mais surgirem casos de sistema imune em break down desde há 4, 5 e 6 anos.

Haveria/haverá esta constante ânsia de vivermos like “super” e com o fear of missing out entranhado em nós? Estamos todos a caminhar para algo, é certo. Talvez uma nova consciência em como viver.

A monotonia puxa-nos para procurar o que nos libertará mais adrenalina. E adrenalina vai nos presentear com a boa pequena ressaca no pós. Aceitamos a pequena ou queremos mais e mais? Ou preferimos onde nada acontece?

Em que ficamos? Talvez 20.22 traga a resposta. 

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